A recuperação extrajudicial solicitada pela Aeris, fabricante cearense de pás eólicas com principal planta fabril no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, deve resultar em uma operação menor e mais voltada à exportação, além de pressionar fornecedores locais de menor porte. O pedido para renegociar um montante de pouco mais de R$ 1,52 bilhão em obrigações financeiras e readequar a estrutura de capital foi divulgado em fato relevante ao mercado. Segundo especialistas, o episódio reflete uma crise que afeta todo o setor de energia eólica, causada por fatores como falta de demanda, excesso de oferta de energia e cortes de geração.
Para o consultor e sócio fundador da Energo Engenharia, Adão Linhares, a medida tende a apertar o capital de giro e alongar o prazo de pagamento na ponta para os fornecedores de menor porte. O especialista destaca ainda que o cenário compromete a percepção de investidores internacionais de que o Brasil é um lugar seguro para a instalação de indústrias de transição energética. Na visão do membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE) Thiago Holanda, o caso expõe a fragilidade da cadeia industrial e mostra que atrair indústrias para o setor não basta se a demanda interna por novos projetos não for estável.
Apesar da gravidade do cenário, não são esperados o fechamento imediato da empresa e a demissão de funcionários a curto prazo. Holanda aponta que o risco concreto reside na falta de fôlego da companhia para investir, contratar e disputar novos contratos, ponderando que o caminho natural para o fracasso da renegociação seria a recuperação judicial. Linhares reforça que o pedido de recuperação representa uma tentativa de evitar o encerramento das atividades e projeta que o movimento para 2026 será de reativação e recontratação puxado pela exportação, após a demissão de mais de 5 mil funcionários ao longo da crise apontada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará.
A crise da Aeris remonta a meados de 2023, período em que a empresa começou a reduzir o número de linhas de produção ativas em comparação com 2022. A companhia fechou o primeiro semestre com dívida bruta de R$ 1,93 bilhão, prejuízo líquido de R$ 290 milhões e um rombo de R$ 152 milhões no segundo trimestre. Mesmo com cerca de 90% do endividamento reestruturado em 2025, a empresa recorreu a medidas cautelares para suspender execuções de dívidas antes de formalizar o pedido de recuperação extrajudicial, que suspende cobranças e execuções judiciais vinculadas ao plano por 90 dias para negociação com os credores.
Em nível nacional, o declínio do setor eólico é atribuído ao excesso de oferta de energia, preços baixos no mercado livre, juros altos e cortes de geração por falta de linhas de transmissão, o que fez a contratação de novos parques despencar. Com a fábrica operando com menor produção, a empresa viu os juros da dívida consumirem a melhora operacional. Especialistas alertam que a recuperação total da companhia e a retomada da demanda doméstica dependem de fatores como a entrada de capital novo, diversificação de clientes, previsibilidade em leilões e solução para os cortes de geração.






