As mudanças climáticas têm se tornado um dos principais fatores responsáveis pelo aumento de doenças infecciosas no Brasil, conforme aponta um estudo da Fundação Oswaldo Cruz publicado na revista científica Nature Medicine. O levantamento revelou uma transmissão progressiva da dengue em direção às regiões Sul e Centro-Oeste, que historicamente registravam a menor proliferação do mosquito Aedes aegypti.
A desregulação climática é apontada como a principal causa dessa mudança no comportamento do vetor. O inseto se reproduz em faixas de temperatura entre 18°C e 33°C, e a Região Sul e áreas de planalto apresentavam médias de inverno abaixo de 18°C, o que funcionava como uma barreira geográfica natural.
Com o aquecimento acima desse padrão, o ciclo do mosquito passou a se manter ativo o ano todo, permitindo a sustentação continuada da doença. Os autores do estudo destacaram em entrevista à Agência Brasil que o processo de expansão da área de transmissão parece irreversível e que, uma vez introduzidos, o vírus e o vetor dificilmente retornam ao cenário de transmissão zero.
O aumento das ondas de calor no verão também atua como um acelerador do ciclo reprodutivo do vírus. A região Sul, que apresentava baixa frequência desse fenômeno, passou a registrar 10 dias por mês com anomalias térmicas, segundo a pesquisa que analisou a disseminação e o agravamento da dengue entre 2000 e 2024.
Os resultados indicam que o vírus está se expandindo territorialmente de forma continuada, podendo progredir para formas mais graves e evoluir para o óbito. De 2006 a 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos mais do que dobrou, saltando de 110 para 292, o que representa metade do país, enquanto apenas três microrregiões permaneceram sem registros.
O fenômeno El Niño, iniciado no segundo semestre de 2026, também influencia o cenário e deve provocar 44% dias a mais de calor extremo do que o esperado em um ano normal, conforme relatório da Universidade de Chicago publicado na revista Climate Impact. No começo de outubro, o Ministério da Saúde divulgou o 2º ciclo do Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti, identificando que 49,2% dos municípios estão em situação de alerta.
Para prevenir a proliferação do mosquito, o Ministério da Saúde orienta a realização de vistorias regulares em residências e arredores para eliminar locais que acumulam água. A população deve verificar vasos de plantas, garrafas, baldes, pneus, calhas, ralos e caixas d'água, mantendo recipientes fechados, limpos e com destinação adequada para evitar riscos durante todo o ano.






