Milhares de pessoas aguardam atualmente em uma fila por um novo órgão no Brasil, enquanto a recusa de quase metade das famílias ainda impede a realização de mais procedimentos. O Ministério da Saúde aponta que as maiores demandas registradas no país são por rim, fígado e coração, totalizando quase 50 mil pacientes à espera de um transplante. Para auxiliar na celeridade do processo, o país conta com duas maneiras digitais para declarar o interesse em ser um doador de órgãos no pós-vida.

A primeira alternativa é a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, conhecida como AEDO, que está disponível por meio de um sistema totalmente digital. O procedimento é gratuito e pode ser realizado diretamente no site oficial da plataforma, onde o interessado preenche um formulário com seus dados. Em seguida, um cartório aciona o doador para a confirmação das informações por meio de uma chamada de vídeo. Com a emissão do documento, a Central Nacional de Doadores de Órgãos consegue identificar o cadastro pela consulta do CPF.

A segunda via digital para registrar o desejo é a inclusão da informação na nova Carteira Nacional de Identidade. A indicação de que o cidadão deseja ser doador de órgãos fica impressa no verso do documento na versão digital e pode ser solicitada no momento da emissão da nova identidade. Quem já possui o registro na carteira anterior pode manter o documento válido até 2032, mas quem não tem a sinalização e deseja participar deve emitir uma nova via do documento de identificação.

No Ceará, a Fundação Edson Queiroz realiza a campanha Doe de Coração, iniciativa que há 24 anos estimula a doação de órgãos e tecidos no estado. Coordenada pelo médico Lourrany Borges Costa, a mobilização promove ações em locais de grande circulação para aproximar profissionais de saúde da população e esclarecer dúvidas. Os especialistas ressaltam que mitos relacionados ao procedimento hospitalar e ao pós-operatório ainda geram receios entre os cidadãos.

Profissionais de saúde reforçam que cerca de 45% das famílias ainda recusam a doação de órgãos após a constatação de morte encefálica nos hospitais. O desconhecimento sobre a vontade prévia do paciente é apontado como um dos principais fatores para a negativa no momento da abordagem. A comunicação clara do desejo em vida aos familiares confere maior segurança aos parentes para autorizar o procedimento, que pode salvar até oito vidas por doador.

Histórias de superação evidenciam o impacto positivo do ato solidário no estado, a exemplo de pacientes que recuperaram a saúde após receberem um novo órgão. Equipes de coordenação de transplantes destacam que o consentimento familiar, além de beneficiar quem aguarda na fila de espera, ajuda os parentes a ressignificarem a perda de um ente querido. A orientação principal das equipes médicas é que cada cidadão expresse sua vontade espontânea aos familiares para fortalecer a corrente de solidariedade.