A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 25 de outubro de 2026, foi seguida por uma explosão de ofensas, ataques e manifestações discriminatórias contra nordestinos nas redes sociais. Um levantamento realizado pela Ativaweb DataLab identificou aproximadamente 14,7 milhões de menções críticas à região entre a noite da eleição e as 16 horas do dia 28 de outubro, com forte teor preconceituoso. O estudo aponta que o Nordeste foi mencionado 18.567.871 vezes nas plataformas digitais durante o período, sendo 79,3% das manifestações classificadas como críticas e apenas 20,7% em defesa da população nordestina.

No Ceará, um dos episódios que ganharam repercussão ocorreu em um condomínio residencial no município de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. Dois moradores teriam publicado mensagens discriminatórias contra nordestinos em um grupo de WhatsApp no domingo do segundo turno. Diante dos fatos, a 2ª Promotoria de Justiça de Eusébio, vinculada ao Ministério Público do Estado do Ceará, abriu procedimento para apurar a possível prática de crime de xenofobia, solicitando o comparecimento dos envolvidos e informações da administração do condomínio.

De acordo com a pesquisa da Ativaweb DataLab, o conteúdo das mensagens ultrapassou os limites do debate político ao associar os nordestinos à pobreza e à dependência econômica, além de questionar sua capacidade intelectual e utilizar expressões desumanizantes. O levantamento também identificou publicações que defendiam a separação do Nordeste do restante do território brasileiro, com alcance nacional e participação expressiva de usuários das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

O fenômeno de hostilidade regional já havia sido registrado após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, quando foram contabilizadas cerca de 32,8 milhões de menções nas primeiras 72 horas, das quais 82% foram consideradas críticas. Somando os dois turnos eleitorais, o monitoramento contabilizou mais de 51,4 milhões de menções relacionadas ao comportamento eleitoral da população nordestina, resultando em 41,7 milhões de publicações críticas ao longo de todo o processo.

Em relação ao perfil dos autores das postagens, a pesquisa apontou que 52,3% dos perfis identificados pertenciam a homens, enquanto 24,5% eram femininos e 23,2% não puderam ser determinados. Os pesquisadores associaram a predominância masculina a padrões de agressividade e confronto político observados em redes sociais como Facebook, Instagram, TikTok, X, YouTube e Kwai.

Especialistas e operadores do direito lembram que agressões baseadas na origem regional podem configurar crimes previstos na legislação brasileira, a exemplo da Lei nº 7.716 de 1989, que pune a discriminação e a incitação ao preconceito por procedência nacional. Embora a Constituição garanta a liberdade de expressão e de manifestação política, os órgãos de controle resguardam que tais direitos não abarcam ataques discriminatórios contra grupos populacionais.