Jumento do Ceará: Do barateza à indústria milionária na China
Comércio informal de pele e colágeno do animal movimenta mercado asiático, mas ameaça o agronegócio local.
Reprodução/Divulgação
O jumento nordestino, símbolo de resistência no semiárido cearense, é comercializado informalmente no estado por valores irrisórios, entre R$ 1 e R$ 10. Contudo, sua pele e colágeno podem render até R$ 1.500 na China, onde são utilizados pela indústria de cosméticos.
Apesar de movimentar um mercado milionário na Ásia, essa atividade não representa oportunidades viáveis para o agronegócio local, ameaçando a reputação do setor pela falta de rastreabilidade. A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) aprovou recentemente a Sugestão Legislativa para proibir o abate de jumentos em todo o país.
A justificativa abrange a proteção animal, o risco de extinção e a necessidade de preservar a imagem do agronegócio brasileiro frente a riscos sanitários decorrentes da informalidade da atividade. Especialistas apontam que a lenta reprodução do jumento, com gestação de 12 a 13 meses e um filhote por vez, inviabiliza economicamente um sistema de produção em larga escala, diferente da pecuária convencional.
A demanda mundial por pele de jumento é altíssima, com uma previsão de abates globais de 6,8 milhões de animais até 2027. No Ceará, a população de asininos caiu mais de 72% entre 1995 e 2017.
O Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) recolheu 549 jumentos abandonados nas estradas cearenses entre janeiro e abril de 2026. A comercialização atual baseia-se na captura de animais abandonados ou em compras de baixo valor, sendo transportados para frigoríficos na Bahia.
A falta de transparência na origem, transporte e condições sanitárias dos animais representa um risco sanitário e reputacional para o agronegócio brasileiro. Projetos de lei tramitam no Ceará e na Bahia buscando a proibição do abate, enquanto discussões globais visam encerrar esse mercado de risco para a espécie.