O câncer do colo do útero figura como o terceiro tipo de tumor mais incidente entre as mulheres no Brasil, conforme estimativas do Instituto Nacional de Câncer. Nas regiões Norte e Nordeste, a enfermidade ocupa a segunda posição em incidência. A doença registra cerca de 19,3 mil novos casos e mais de 7 mil perdas da vida por ano no País. A infecção persistente pelo papilomavírus humano de alto risco é o principal fator associado ao desenvolvimento do tumor maligno, embora o risco possa aumentar com o tabagismo, a imunossupressão e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Em entrevistas concedidas ao Diário do Nordeste, os especialistas da Rede ICC, os médicos oncoginecologistas Rafaella Torres e Ricardo Juaçaba, explicaram os principais sintomas, as formas de tratamento e as medidas de prevenção da doença. O câncer do colo do útero é um tumor localizado na parte inferior do útero, em uma região que se comunica com a vagina. A condição surge primordialmente de uma lesão não oncológica provocada pela infecção persistente, que pode evoluir para câncer em um período de 15 a 20 anos, intervalo que pode ser reduzido para cinco a dez anos em mulheres com HIV.
Nos estágios iniciais, a doença geralmente não apresenta sintomas, o que reforça a relevância dos exames de rastreamento. Entre os sinais de alerta estão sangramento vaginal anormal ou após a relação sexual, corrimento anormal, dor na relação sexual e dor pélvica. Nas fases mais avançadas, as pacientes podem apresentar sintomas urinários ou intestinais, além de inchaço nas pernas e perda de peso. A recomendação médica é direta ao indicar que quem apresenta sintomas não deve aguardar o exame de rotina e precisa buscar avaliação célere.
O Papanicolau destaca-se como um dos principais exames utilizados no rastreamento, responsável por coletar células do colo do útero e analisá-las ao microscópio para identificar lesões precursoras e o câncer. Os serviços médicos encontram-se em fase de transição para o teste de DNA-HPV, que possui maior sensibilidade, detecta o material genético dos tipos de alto risco antes das alterações celulares e vem sendo implantado de forma gradual no Sistema Único de Saúde. O HPV está presente em praticamente todos os casos da doença, sendo os tipos 16 e 18 responsáveis por 71% das ocorrências.
O risco de desenvolvimento da doença também eleva-se com o início precoce da vida sexual, relações sem preservativo, múltiplos parceiros, uso prolongado de anticoncepcional oral, não tomar a vacina e não fazer o exame de prevenção. Apesar de o vírus estar associado a quase todos os casos, a maioria das infecções é eliminada pelo próprio organismo, tornando a persistência viral o fator crítico. No que tange à fertilidade, as mulheres diagnosticadas que passam por tratamentos como retirada do útero ou quimiorradiação com cisplatina podem enfrentar infertilidade devido à falência dos ovários e danos ao útero, embora existam métodos de preservação como a transposição dos ovários e o congelamento de óvulos ou embriões.
A prevenção primária baseia-se na vacinação contra o HPV antes do início da vida sexual, além de evitar o contato com o vírus por meio de preservativos. A imunização está disponível no SUS em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com resgate dos 15 aos 19 anos até dezembro de 2026. O diagnóstico inicial ocorre por meio do exame ginecológico, seguido de biópsia em caso de alteração e exames de imagem para estadiamento. O tratamento varia conforme a fase, priorizando cirurgia nos estágios iniciais com possibilidade de preservação parcial do útero, e radioterapia com quimioterapia nos casos mais avançados, oferecendo chances reais de cura, especialmente quando descoberto precocemente.






