O Brasil registrou o período pré-eleitoral mais violento dos últimos dez anos, conforme apontou uma pesquisa divulgada pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global. O levantamento contabilizou 354 casos de violência política no intervalo avaliado, o que representa um aumento de 18,4% em relação aos 299 episódios computados no período anterior, encerrado em agosto de 2024. As ocorrências mapeadas abrangeram o intervalo entre 28 de outubro de 2024, dia seguinte ao segundo turno das eleições municipais, e 15 de agosto de 2026, data que antecedeu o início da propaganda eleitoral.
Com esses números, a média nacional indicou a ocorrência de um episódio de violência política a cada 44 horas no país. Entre as tipificações mais frequentes identificadas no estudo estão as ameaças, que somaram 193 casos, além de 71 ocorrências de ofensa, 51 de agressão física, 17 atentados, 11 assassinatos, seis episódios de criminalização e cinco invasões. No recorte estadual, São Paulo liderou a quantidade de registros com 67 casos, seguido pelo Paraná com 31 e pelo Ceará com 29 ocorrências.
A pesquisa detalhou ainda que em 96,3% dos registros as vítimas foram pessoas que já exerciam mandatos ou cargos públicos, sendo metade composta por mulheres cis, trans e travestis. Do total de episódios, 63% concentraram-se na política municipal, atingindo diretamente vereadores e prefeitos. A letalidade seguiu a mesma proporção, com 24 dos 28 episódios de intenção letal ocorrendo contra agentes políticos locais, incluindo dez dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados mapeados.
Outro ponto destacado pelo levantamento indicou que 26 episódios apresentaram indícios de envolvimento ou contexto de facções criminosas e crime organizado, concentrando-se especialmente nos estados do Ceará, com 12 casos, do Rio de Janeiro, com quatro, e de São Paulo, com três. Nesses cenários, os alvos foram predominantemente prefeituras e secretarias municipais. Foram citados episódios simultâneos de ameaças a prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em municípios como Cariré, Meruoca e Jaguaribara, no Ceará, além de ocorrências registradas em Mossoró, no Rio Grande do Norte.
A diretora-executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho, avaliou que a violência atinge quem ocupa espaços de decisão e exerce poder sobre recursos e contratos públicos. Segundo a representante, a presença de grupos criminosos e até mesmo de policiais entre os responsáveis aponta para um cenário que ameaça tanto a vida de representantes políticos quanto o funcionamento das instituições democráticas.
Apesar de 84,5% dos casos terem sido formalmente denunciados, a taxa de responsabilização apontada pela pesquisa permaneceu baixa. Apenas 46 casos contavam com apuração judicial ou policial em curso, e somente nove episódios resultaram em punição efetiva dos autores, o equivalente a 2,5% do total.
Diante do cenário, as organizações responsáveis pelo levantamento apontaram que os mecanismos institucionais de proteção atuais são falhos por se concentrarem exclusivamente no período de campanha e na figura dos candidatos. O estudo defendeu a urgência de políticas públicas contínuas de proteção ao exercício do mandato parlamentar durante todo o ano, com atenção direcionada a vereadoras e lideranças locais.






